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É preciso ter coragem para habitar em si mesmo.

  • Foto do escritor: Pedro Rangel
    Pedro Rangel
  • 18 de jan.
  • 4 min de leitura

Janeiro desponta no horizonte do calendário como um campo vasto coberto de neve recém-caída: silencioso, imaculado e, por vezes, assustadoramente branco. O "Janeiro Branco" nos convoca a essa pureza, a essa promessa visual de um recomeço absoluto. Há uma sedução inegável na ideia da "tábula rasa", de uma página em branco onde o passado não tem tinta para escrever. Gostamos de acreditar que, ao virar a folha do ano, nos tornamos, magicamente, novos autores de nós mesmos. Mas a Psicologia, e a própria vida, com sua teimosia biológica, nos ensinam uma verdade mais complexa: ninguém pisa em janeiro sem marcas. Ninguém chega a este momento vazio.


Nós somos, em essência, geografias antigas e povoadas. Antes mesmo de termos linguagem para nomear o mundo, o mundo já nos nomeava. Chegamos aqui carregados de malas que não fizemos, vestindo roupas que outros costuraram para nós. Somos o resultado de tempestades que não previmos e de estações climáticas que não escolhemos. Desde o primeiro sopro de vida, somos criaturas de poros abertos, radicalmente vulneráveis à intempérie do outro. A existência nos atravessa sem pedir licença.


Fomos esculpidos por mãos alheias. Somos o reflexo da cultura em que fomos lançados, das palavras duras que nos feriram na infância e que ainda ecoam em cômodos vazios da memória. Somos moldados pelos afetos que nos nutriram, mas também pelos silêncios gélidos que nos desampararam. Como uma cera mole exposta ao calor e ao frio, o ambiente nos imprimiu suas marcas, criando condicionamentos, medos irracionais e reações automáticas que, muitas vezes, confundimos com a nossa "personalidade".


É doloroso, e até vertiginoso, reconhecer essa passividade inicial. Dói admitir que muitas das nossas dores atuais são ecos de pedras atiradas anos atrás, por braços que nem estão mais aqui. Somos afetados pelo acaso, condicionados pela repetição e, sim, muitas vezes prejudicados por histórias nas quais fomos meros coadjuvantes. A ansiedade que trava o peito, a tristeza que não cessa ou a raiva que explode desproporcionalmente podem parecer sentenças definitivas, como se fossem falhas na nossa estrutura óssea. Mas elas não são ossos. São cicatrizes. E cicatrizes são apenas a prova de que o tecido da vida foi rompido e, de alguma forma, remendado.


Muitos passam a vida inteira presos nesse primeiro ato da existência: o ato da reação. Vivem como folhas ao vento, respondendo aos traumas antigos, repetindo os roteiros escritos por seus pais ou avós, sem nunca questionar quem está, de fato, segurando a caneta. Mas aceitar nossa vulnerabilidade não significa aceitar um destino imutável. A beleza trágica e luminosa da psique humana reside justamente na sua plasticidade. Se por um lado somos feridos de fora para dentro, a cura e a transformação verdadeira acontecem no fluxo oposto: de dentro para fora. É aqui que o "olhar para dentro" deixa de ser um clichê de autoajuda e se torna um ato de coragem revolucionária.


Olhar para dentro não é uma visita turística a um jardim bem-cuidado. É uma expedição a um terreno acidentado. É descer aos porões da própria mente, muitas vezes sem mapa, apenas com uma lanterna na mão, dispostos a encontrar o que foi escondido ali. É olhar para os nossos monstros, não para combatê-los com espada e fúria, mas para convidá-los a sentar e perguntar: "O que vocês vieram me ensinar?".


Nessa encruzilhada entre o determinismo do passado e a liberdade do futuro, existe uma verdade fundamental que precisa ser dita, uma máxima que serve como bússola para qualquer processo terapêutico ou filosófico de cura: "O conflito é inerente ao homem. A capacidade de resolução também."


Essa frase carrega em si a dualidade da nossa condição. A primeira parte nos absolve da culpa de sofrer. O conflito é inerente. Não existe vida humana asséptica, livre de atrito. Somos seres contraditórios, feitos de carne e sonho, de desejo de liberdade e necessidade de segurança. O conflito — seja ele com os outros, com as circunstâncias ou com os nossos próprios demônios — faz parte do pacote indissociável da existência. Tentar viver uma vida sem angústia é uma utopia que só gera mais neurose. O sofrimento é um dado da realidade. É a taxa que pagamos por estarmos vivos e conscientes. Porém, a segunda parte da sentença é onde mora a nossa redenção: a capacidade de resolução também é inerente.


Nós possuímos, gravada no nosso código psicológico, a ferramenta da alquimia. A mesma natureza que permite a ferida, inventou a cicatrização. A Psicologia chama isso de resiliência, de elaboração, de ressignificação. Eu prefiro chamar de a arte de se tornar autor. Nós temos a capacidade inata de pegar a matéria-prima bruta do nosso sofrimento — o barro da nossa dor — e modelá-la em algo novo.


A resolução não significa que o conflito desaparece magicamente. Significa que ele deixa de nos paralisar. Significa que podemos olhar para o passado não como uma âncora que nos prende, mas como um livro que já lemos. Podemos não ter o poder de apagar os parágrafos tristes que foram escritos, mas temos total soberania para decidir como o capítulo atual vai terminar. E, mais importante, como o próximo vai começar.


Quando olhamos para dentro, começamos a separar o que é nosso do que é do outro. Devolvemos os medos que não nos pertencem. Despedimo-nos das culpas que nos foram impostas. Esse processo de "mudar quem somos" não é, na verdade, uma mudança. É um reencontro. É escavar as camadas de condicionamento e dor até encontrar aquela essência que estava lá antes de o mundo nos ferir.


Este Janeiro Branco, portanto, não deve ser visto apenas como um alerta sobre doenças ou sintomas. Ele é um convite filosófico. É um chamado para que paremos de lutar contra a nossa própria história e comecemos a integrá-la.


Você foi moldado pelo mundo, é verdade. Você foi vulnerável, foi afetado, foi machucado. Mas nada disso é sua sentença final. A partir do momento em que você volta o olhar para si mesmo, com compaixão e honestidade, a dinâmica muda. O mundo pode ter feito o rascunho, cheio de garranchos e borrões. Mas a caneta, agora, está firme na sua mão.


O conflito sempre estará lá, fiel como a sua sombra. Mas a sua luz, essa capacidade ancestral e poderosa de resolver, de compreender e de seguir em frente, brilhará sempre, inevitavelmente, mais forte. Que este mês seja o início não de uma vida perfeita, mas de uma vida desperta.

 
 
 

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