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  • pedrorangelpsicolo

Por que não estou nas redes sociais?

Sou da época do Skype, Messenger, ICQ e Orkut. Utilizei as ferramentas de vídeo e mensagem para conversar com meu pai, que morava em outro país, mas, por total falta de interesse, fiquei de fora da primeira plataforma de virtualização dos relacionamentos.


Quando o Facebook chegou, também por falta de interesse, me mantive distante. Assim ocorreu com o Instagram, até a Pandemia de Covid 19. Diante das mudanças promovidas pelo isolamento social, com muitos pacientes deixando os consultórios e migrando para as sessões online, contratei uma empresa de marketing digital, que me orientou a ingressar no mundo digital para captar novos pacientes e conseguir me inserir como opção para aqueles que buscavam atendimentos online. No final de 2021, criei meu perfil e comecei a criar publicações interessantes sobre saúde mental. Vídeos, textos, informações, recomendações e divulgações sobre o que eu fazia profissionalmente. Nada de dancinha, nada de fotos dos filhos na praia, nada de compartilhamento de jantares românticos com a esposa. Apenas Psicologia, saúde mental, trabalho, trabalho e trabalho. No início deste ano, depois de muito me cansar diante das exigências do algoritmo, fiz um teste com um simples site profissional e anúncios no Google. Ao perceber que os pacientes continuavam aparecendo, mesmo sem o uso do Instagram, excluí de vez o perfil e pude respirar para fazer o que eu realmente gosto: atender meus pacientes e escrever, escrever, escrever...


Confesso que não apenas me cansei da necessidade de publicação na plataforma (Instagram), mas me senti extremamente incomodado com o meio virtual. As redes sociais (todas elas) permitiram algo maravilhoso: dar voz àqueles que estavam recolhidos em seus mundinhos. No entanto, fez algo terrível: deu voz àqueles que estavam escondidos em seus mundinhos.


Reconheço que existe muita gente competente, inteligente, divertida... com conteúdos e serviços de boa qualidade, úteis, relevantes... que nos ajudam, agregam valor aos nossos dias, nos emocionam e nos enriquecem de muitas formas. Profissionais da saúde, poetas, jornalistas, artistas, músicos, comunicadores, homens e mulheres que compartilham o que aprenderam para fazer do mundo um lugar melhor e da vida dos outros uma jornada mais leve. Mas, infelizmente, essas pessoas fazem parte de um grupo mínimo... quase invisível em meio às águas tormentosas de um oceano sujo, frio e escuro.


Mais do que o cansaço decorrente das postagens e o desgosto por fazer o que eu não queria (criar conteúdo) e deixar de fazer o que eu queria (escrever e atender), fui obrigado a abandonar o mundo virtual pelo excesso de lixo sendo jogado em meu smartphone, em meus olhos, em minha vida... Não apenas através do Instagram, mas do YouTube também, utilizado por mim eventualmente para assistir a noticiários e escutar música. O excesso de lixo me incomodou! Músicas obscenas demais para o meu gosto, interpretadas por gente empinando o bumbum demais para o meu gosto (quando não são crianças demais para o gosto de qualquer pessoa minimamente sensata); humor pouco engraçado e excessivamente pornográfico; ódio, mentira e estupidez compartilhados em textos e vídeos desnecessários e mal-intencionados; gente desqualificada e desinteressante entrevistando gente mais desqualificada ainda e mais desinteressante ainda, tratando de temas sem qualquer importância e carregados de inconsistências. Esse excesso de lixo me incomodou!


Se esse excesso de lixo não incomoda você, deixarei aqui apenas mais um ponto de vista, decorrente dos meus anos de estudo da mente e do comportamento (como todo psicólogo que se preze). O uso excessivo de smartphones para acessar redes sociais pode trazer, a longo prazo, prejuízos enormes à nossa capacidade de compreender o mundo ao nosso redor e de produzir com qualidade nesse mundo que nos cerca. Isso que chamamos de "telefone inteligente" está, na verdade, nos emburrecendo e nos deixando cada vez mais frágeis e dependentes.


Abordando um ponto diferente do já trabalhado no início deste texto, quero me referir não ao conteúdo inadequado ou nocivo. Pornografia, violência e excesso de estupidez, como já citado, são materiais facilmente acessíveis que podem nos provocar mal-estar (como provocaram em mim) e uma série de transtornos (espero que eu não tenha sido acometido por nenhum) . Isso, talvez, neste ponto de nossa conversa, você já saiba! Quero abrir seus olhos para algo que você talvez ainda não saiba, ou não tenha dado o devido valor.


Se você curte se distrair com os reels do Instagram, os shorts do YouTube ou os vídeos do TikTok, já percebeu que, nos três casos, você tem hora para começar, mas não para acabar! Um vídeo atrás do outro, musiquinhas, dancinhas, situações engraçadas e divertidas, vídeos com sons e imagens que prendem a atenção e que são sucedidos por outros, em uma sequência que não termina. O nome disso é "rolagem infinita". Você inicia um vídeo e só precisa relaxar enquanto os outros passam sem você precisar se mover. Há um enorme prejuízo escondido aqui! O problema aqui não é o conteúdo (que pode até ser interessante em alguns casos), mas a forma utilizada para que a "informação" seja entregue até você. O mecanismo de rolagem infinita te entrega uma quantidade muito grande (infinita) de conteúdos com pouca densidade (pouca complexidade e pouca profundidade), dentro de uma temática que dura pouco tempo, mudando rapidamente (10, 20, 30 segundos... Um minuto, quando muito).


Esse mecanismo está modificando a estrutura de nosso cérebro, adaptando-o a interagir com a informação que recebemos de uma maneira menos sofisticada, mais empobrecida e menos eficiente. Esse consumo de conteúdo raso em grande escala e alteração acelerada, proporcionando sempre o NOVO, o MUITO e o RÁPIDO, está condicionando nosso cérebro a reagir àquilo que ele tem recebido. Qual o resultado disso? Queremos sempre algo novo, em alta velocidade, em grande escala. Nos tornamos inquietos e insatisfeitos rapidamente. Nos tornamos incapazes de realizar grandes associações e interpretações, aguardando por algo pronto, que não exigirá de nós o cansativo exercício de pensar, refletir e construir algo a partir do que foi pensado.


Para finalizar, gostaria de acrescentar que essa construção de um padrão de respostas rápidas também nos leva à incapacidade de realizar elaborações. Sem elaborações, não criamos estratégias de enfrentamento de situações que nos afligem. Sem essas estratégias, nos tornamos incapazes de aceitar conflitos, de encará-los e de aprender a lidar com eles, o que perturba (e muitas vezes impede) o relacionamento entre os indivíduos, considerando que todo relacionamento interpessoal é, em algum momento, carregado de conflito. É também graças a esse tipo de construção, a partir do uso de smartphones e da imersão no mundo virtual, que os relacionamentos humanos estão cada vez mais superficiais.


Ansiedade, tédio, sensação de vazio, dificuldades para terminar tarefas no trabalho, distração e desconcentração nos estudos, incapacidade de concluir a leitura de um livro, dificuldade ou incapacidade de criar e manter relacionamentos amorosos ou de amizade. Percebe algum desses sintomas em você? Em caso afirmativo, pense naquilo que você acabou de ler aqui e faça um esforço para deixar de lado seu smartphone e as redes sociais que você tanto aprecia. Não precisa fazer algo tão radical como eu (excluir contas e colocar o telefone em outro cômodo quando não preciso utilizá-lo para algo realmente importante). Comece se desvinculando daquilo que não te agrega valor. Cancele sua inscrição em canais no YouTube que não te interessam muito e deixe de seguir contas no Instagram e no TikTok que não te acrescentam nada. Pode começar aqui mesmo. Se você está acompanhando meu blog e percebeu que não tem nada a ver com você, apague meu site do seu histórico e vá se divertir com aquilo que te faz bem de verdade!

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