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  • pedrorangelpsicolo

Vivendo em um quarto escuro.

Parar para refletir sobre a existência pode ser uma atividade extasiante. Se formos capazes de deixar de lado a letargia proporcionada pelos comportamentos automatizados e pela falta de sensibilidade diante das surpresas e emoções com as quais a vida nos surpreende, nos daremos conta do quão incrível é possuir um corpo complexo que se mexe e que interage com o ambiente, comandado por um cérebro sofisticado e ainda pouco conhecido… habitando um planeta com uma diversidade fascinante de seres, cores, aromas e sabores… flutuando em um universo com bilhões de anos de existência e uma infinidade de cantos nunca explorados (ao menos por nós, humanos).

 

Parar para refletir sobre a vida que nos foi dada, sobre a vida que escolhemos ter ou que acabamos sendo levados a viver, sobre o amor que sentimos e a felicidade que experimentamos em cada respiração e troca de afetos pode mesmo ser arrebatador. Estar vivo não é obra do acaso. O que nos separa da morte é uma sucessão perfeita de atos, sinais, ativações e comportamentos extremamente refinados, que merecem muita atenção e o devido valor para não sermos taxados de ingratos (ou ignorantes).

 

Entretanto, a vida não mostra essa beleza toda para muitos que parecem incapazes de abrir os olhos sem que tudo ao redor esteja frio e opaco. Muitos se sentem presos em seus quartos escuros, impossibilitados de enxergar a claridade proporcionada pelo sol e a consequente paleta de cores que modifica tons e provoca emoções através da natureza que nasce, cresce e diariamente se renova no planeta que habitamos. Agarrados à mesma inércia e esvaziados de desejo, esses muitos também se ensurdecem diante da melodia de crianças brincando, juras de amor dos apaixonados ou simplesmente folhas caindo em uma manhã de outono.

 

Esses tantos, eu poderia classificar em três: os que cresceram apressadamente, os que adoeceram e os que se perderam. Os que cresceram apressadamente assim o fizeram porque a vida inicial não apresentou boas perspectivas em decorrência de um ambiente pouco acolhedor, e a fase adulta, com suas imensas responsabilidades que afogaram as brincadeiras e agasalharam demasiadamente os sentidos, chegou com ímpeto para deixar para trás, de uma vez por todas, a inocência que faz o ser humano se admirar e se encantar com o simples e comum.


Os que adoeceram, possivelmente porque também não começaram a vida em um ambiente adequado, e porque cresceram sujeitos a mais desventuras e, açoitados pela dor e pelo sofrimento, se esconderam debaixo do cobertor, pois a certeza da escuridão trouxe mais conforto que a dúvida nascida abraçada a uma esperança fragilizada e violentada.


Unindo-se aos dois primeiros grupos, aqueles que se perderam. Lágrimas correm quando percebemos que o mundo se encheu deles. Pranto e desgosto, pois tinham tudo para percorrer um caminho de experiências fascinantes! O que aconteceu com eles? Como se perderam ao longo do caminho? O que os confundiu? Olhar para o lado pode ter atrapalhado. Desejar chegar mais rápido pode ter atormentado. Não falar mais com o espelho — e desaprender a falar com o espelho — pode ter angustiado. Talvez um pouco disso tudo tenha tornado o caminho pedregoso e lamacento, a ponto de se fazer enxergar rotas diversas que, na verdade, nunca existiram. Mas, sem dúvida, nada fez tão mal a esses perdidos do que o sentimento colocado em objetos errados.

 

Muitos se perderam quando passar de ano se tornou mais importante do que aprender. Muitos se perderam quando a experiência sexual se tornou mais cobiçada que o coração batendo de paixão. Muitos se perderam quando o choro da criança passou a ser evitado, não compreendido. Muitos se perderam quando o restaurante ficou mais importante que a comida, o carro mais do que os ocupantes do banco de trás, o título mais do que o conhecimento, as fotos mais do que a experiência, o luxo mais do que o sustento, a ostentação mais do que a paz, a aparência de felicidade que se apresenta nas aventuras demasiadamente inebriantes... mais do que a felicidade de verdade que faz morada na rotina simples e tediosa.

 

Muitos se perderam. Confesso que eu quase me perdi, mas corri de volta para o lugar em que eu deveria estar! Corri de volta e me olhei no espelho! Me olhei no espelho e conversei um pouco comigo! Conversei um pouco comigo, desconstruí alguns conceitos, me despi de alguns valores e estou buscando enxergar como estar vivo (no singelo, no pouco e no pequeno) pode mesmo ser uma experiência extasiante!

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