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Crise de intimidade.

  • Foto do escritor: Pedro Rangel
    Pedro Rangel
  • 7 de fev.
  • 4 min de leitura

Em seus estudos sobre os relacionamentos humanos em sociedade e os conflitos psíquicos decorrentes das interações, Sigmund Freud, o “Pai da Psicanálise”, chegou a várias conclusões profundas e complexas. Mas, curiosamente, fez uma afirmação bastante simples, que utilizarei para começar o assunto de hoje. Segundo ele, os trens, criados para aproximar as pessoas que viviam longe umas das outras, na verdade as afastou ainda mais, considerando a oportunização de novas e longas viagens para lugares antes não conhecidos.

 

Pois é... Isso aconteceu mesmo. E a lógica das criações que objetivam maior proximidade, mas operam em sentido contrário, permaneceu ao longo do tempo, sofisticando seus instrumentos. Telefones, especialmente os móveis, feitos para aumentar a interação, reduziram o contato físico quando expandiram a possibilidade de comunicação por áudio. Não poderíamos deixar de falar dos computadores com internet, não é mesmo? É exatamente o que ocorre hoje com as redes sociais, por exemplo. Comunidades, grupos e ambientes virtuais que facilitam trocas imediatas e frequentes à distância, estimulando menor aproximação de corpos carentes de abraços. Tecnologias de realidade virtual aumentada e até mesmo de imersão integral para comunicação, interação e comercialização de bens e serviços em plataformas virtuais certamente não serão ferramentas de bem-estar psicológico e social se estivermos, de fato, preocupados com a precarização dos relacionamentos humanos.

 

Essas mudanças permitidas pelo desenvolvimento, com ênfase na tal da hiperconectividade, não são, no entanto, as únicas responsáveis pelo processo de desintegração social. Existem movimentos internos, individuais na psique humana, que têm se intensificado como fonte de perturbação emocional, ocasionando o que podemos chamar de “crise de intimidade”. A proximidade estimulada e fortalecida por laços de afeição entre os seres humanos está se tornando mais escassa, graças, também, a outros fatores que precisam ser considerados.

 

Não quero ser prolixo ou técnico demais, mas preciso apontá-los para que tenhamos melhor conhecimento a respeito do que estamos tratando aqui: a fragmentação da vida comunitária (famílias mais fechadas e isoladas dos espaços coletivos); os imperativos econômicos do mercado de trabalho (pressões por desempenho e produtividade individual, que desestimulam os momentos de lazer em grupo e também os vínculos pessoais em ambientes de grande competitividade); o individualismo da modernidade (em grupos sociais baseados no excesso de consumo, como ocorre em nosso meio, as aspirações individuais são priorizadas em detrimento de ações voltadas para a diluição da satisfação de interesses dentro de uma comunidade mais ampla); a flexibilidade identitária (a redefinição das identidades de gênero e das expectativas masculinas e femininas, o que contribui para a reconfiguração das relações íntimas, aumentando a complexidade dos vínculos afetivos e, consequentemente, reduzindo as disponibilidades individuais para a construção dos relacionamentos).

 

E, talvez o mais importante desses fatores: o individualismo afetivo. Na verdade, este último é o grande resultado de todos os fatores somados e interligados. Diante das exigências que se apresentam para que homens e mulheres ajustem suas expectativas, controlem seus impulsos, ponderem sobre consequências e perdas quando decidem estabelecer vínculos e deixar de lado interesses pessoais, o cérebro humano encara a situação estressante como um objeto a ser suprimido e evitado e, somando a isso um processo de economia de energia ligado à necessidade de sobrevivência, ações voltadas para comportamentos de evitação e afastamento social são escolhidas como as primeiras e mais eficazes opções.

 

No lugar do estabelecimento de vínculos fortes e da consolidação de relações íntimas e complexas, com compartilhamento de desejos, sonhos, projetos e também medos e fraquezas, estamos presenciando o afastamento social e a construção de relações superficiais, frágeis e suscetíveis ao encerramento diante de qualquer sombra de aprofundamento que ocasione algum tipo de desestabilização. Mas precisamos entender que o amor desestabiliza, assim como a entrega, a renúncia, o casamento, a decisão de ter filhos... Para sermos completos em nossa experiência humana, precisamos desses rompantes de desestabilização, e é justamente o que estamos perdendo quando optamos pela economia de energia afetiva ao evitarmos a intimidade.

 

O problema de basear o comportamento humano exclusivamente em um processo de luta objetiva entre ganhar e perder, é que vivemos não apenas no contexto biológico, mas no mundo simbólico do desejo. Quando ignoramos o desejo que habita dentro de nós, que nos impele ao amor, aos relacionamentos duradouros, complexos e tão famintos por toque, beijo e abraço quanto por confissões, escuta, pedidos de acolhimento e de suporte emocional, nos deparamos exatamente com o cenário atual: a solidão. Acesse o noticiário pelo seu smartphone e você verá que os níveis de solidão estão a cada dia mais altos, não mais apenas entre os idosos, que perderam seus companheiros e amigos pela implacável ação do tempo, mas adultos jovens e adolescentes se aproximando da juventude. Homens e mulheres com medo de se entregar e com enorme dificuldade para desenvolver relações de confiança.

 

Solidão que impede que novas amizades aconteçam e que afasta as possibilidades de um grande amor. Solidão que esfria e desfaz amizades um dia construídas e amores antes celebrados diariamente na vida a dois. Solidão que faz a vida perder paixão, perder cor, e ganhar um estrondoso tique-taque de um relógio que marca um tempo sem final, pois não há destino ou objetivo que façam realmente o viver valer a pena..., pois onde há solidão, não há desejo. E se não houver desejo... Bem... Nesse caso, é só apagar a luz e fechar a porta.

 

Se você não se conforma com esse fim, venha comigo! Levante-se e dê vida ao desejo que pede vazão! Vamos, juntos, celebrar a intimidade com aqueles que ainda nos dão essa oportunidade. Dificuldades nos relacionamentos existem e podem ser resolvidas e superadas. Crise de intimidade, não!

 
 
 

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