Sexualidade feminina.
- Pedro Rangel

- 8 de mar.
- 4 min de leitura
Para o Dia Internacional da Mulher, eu não poderia ter escolhido um outro tema. Não mesmo! Faço parte de uma sociedade reprimida e hipócrita. Como escritor fascinado pela mente humana e, principalmente, como terapeuta que possui um forte compromisso social com a saúde mental, eu preciso colocar em palavras o que tem sido há tanto tempo ocultado ou apresentado de forma equivocada, falha e mentirosa.
Falar sobre sexualidade feminina é, antes de tudo, um exercício de desaprendizagem. Isso mesmo! Por séculos, o corpo da mulher foi um território mapeado por mãos externas: ora santificado pelo altar da maternidade, ora patologizado, ora mercantilizado. Mas, quando silenciamos as vozes do mundo e mergulhamos na subjetividade, o que encontramos é um labirinto vibrante onde a biologia e o mito se encontram em uma coreografia complexa e, por vezes, dolorosa.
Para a Neurociência, a sexualidade feminina não é um evento localizado. É uma "sinfonia sistêmica". O organismo responde a estímulos, mas esses estímulos são filtrados por uma rede cognitiva pesada. Quando uma mulher assume múltiplos papéis sociais — a profissional impecável, a administradora do lar, a parceira atenta — o cérebro entra em um estado de hipervigilância. O córtex pré-frontal, sobrecarregado pela carga mental, dificulta a desativação da amígdala (o centro do medo e estresse). Para o organismo feminino, o prazer exige a queda das guardas. No entanto, como "baixar as armas" se a sociedade exige que a mulher esteja sempre pronta e vigilante? O desejo, aqui, não é apenas químico. É uma conquista de espaço psíquico contra o cansaço estrutural!
Um dos tabus mais resistentes habita a fronteira entre a "Mãe" e a "Mulher", conflito com o qual me deparo constantemente no consultório. A maternidade, em nossa cultura, ainda é lida sob o verniz da abnegação total. Quando o corpo se torna fonte de nutrição e cuidado, a sexualidade pós-maternidade muitas vezes é empurrada para o exílio. Biologicamente, a prolactina alta e o foco no cuidado infantil alteram o ritmo da libido. Psicanaliticamente, o desafio é ainda maior: como conciliar a "Madona" (a santa mãe) com a "Vênus" (a mulher desejante)? Muitas mulheres sentem que o erotismo é uma traição ao amor materno. O corpo, que agora pertence ao filho e à rotina, parece estranho ao prazer egoísta e individual. Retomar a vida sexual após os filhos não é apenas um retorno ao ato, mas uma reconquista da própria pele.
Nesse cenário, a culpa surge como a grande sentinela. Culpa por desejar, culpa por não desejar, culpa por dedicar tempo ao próprio prazer enquanto o choro da criança ecoa ou o trabalho acumula. A culpa é o veneno que neutraliza a dopamina. Na Psicanálise, vemos que a culpa atua como um censor que proíbe a mulher de se apropriar do seu "gozo". É aqui que a fantasia se torna o mecanismo de libertação. A fantasia não é uma fuga da realidade, mas uma ferramenta de sobrevivência do desejo. É no espaço seguro do imaginário que a mulher pode suspender os papéis sociais, ignorar a culpa e explorar cenários onde ela não é "mãe de", "esposa de" ou "filha de". A fantasia permite que o desejo respire quando a realidade sufoca. É o ensaio secreto de uma liberdade que o mundo exterior ainda tenta restringir.
A sexualidade feminina é um ato de rebeldia contra o destino biológico! Se a maternidade é um evento do organismo, a sexualidade é um evento da existência. Reivindicar o prazer após tornar-se mãe é afirmar: "Eu ainda existo para além do meu papel produtivo ou reprodutivo".
A mulher que experimenta sua própria sexualidade é como um vulcão que em algum momento aprendeu a ser jardim, mas que nunca esqueceu o fogo que carrega nas entranhas. É uma linguagem sem alfabeto, escrita na ponta dos dedos. É a beleza da vulnerabilidade que se transforma em força; o mistério de um corpo que pode gerar vida, mas que também reclama, com a força de mil ancestrais silenciadas, o direito soberano de viver para o seu próprio deleite.
Integrar esses pilares é entender que a sexualidade feminina não é um "problema a ser resolvido", mas um mistério a ser vivido. Exige o acolhimento do organismo cansado, o enfrentamento da culpa imposta pela cultura e a validação das fantasias que mantêm a chama acesa.
Que possamos caminhar para uma visão de mundo onde a mulher não precise escolher entre o berço e o próprio corpo. Onde a sexualidade seja vista não como uma obrigação de performance, mas como a música que a alma dança quando finalmente se sente em casa — livre de papéis, inteira em sua própria pele.
Agora, enquanto você, mulher, termina esta leitura, eu convido você a fechar os olhos por um breve instante e ouvir o ritmo da sua própria respiração. Sinta o peso do seu corpo, o calor que emana da sua pele, a pulsação sutil que percorre suas mãos. Há uma vida vibrando aí dentro, independente dos papéis que você desempenha para o mundo. O seu desejo não é um luxo; é o seu centro. Ele é a bússola que te reconecta com a sua essência mais vital e selvagem. Talvez seja o momento de silenciar o barulho externo e permitir que esse calor se espalhe, transformando a teoria em toque, a reflexão em arrepio e a busca em encontro.
Permita-se! O prazer é o lugar onde você finalmente volta para casa. E o seu corpo, com toda a sua sabedoria milenar, já sabe o caminho.

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