A construção do amor entre irmãos.
- Pedro Rangel

- 27 de abr.
- 6 min de leitura
Acabei de regressar de uma pequena viagem em família. Sol, mar, comida boa, beijos, abraços, risos, música e toda a diversão possível de ser vivenciada por um casal com seus dois filhos durante alguns dias sem escola e sem trabalho. Tempo em quantidade e qualidade para permitir escuta, atenção, presença e inúmeras considerações a respeito de crianças a quem Deus concedeu saúde e o ambiente condicionou o bom desenvolvimento.
Onze e sete anos. Um menino e uma menina que passaram pela fase do choro por tudo e qualquer coisa; que sentiram o gosto da aventura de engatinhar e andar, tornando os colos menos frequentes; que trocaram os seios da mãe onipotente, onisciente e onipresente pelas frutas amassadas e, depois, por uma variedade de alimentos com cores, texturas e sabores dos mais diversos; que choraram por ficar na escola e, pouco depois, por ter que sair dela após um dia muito divertido; que conheceram outros rostos, sentiram outros abraços e reconheceram outras vozes, além daquelas com as quais já estavam acostumadas dentro do lar; que fizeram amigos eternos durante um semestre; que aprenderam que a vida é tão boa quanto injusta, e que podem, sim, ser felizes sem mamãe e papai por perto. Um menino de onze e uma menina de sete lutando contra ondas gigantescas de meio metro, construindo fortalezas inabaláveis que somente as espumas de águas salgadas conseguem penetrar, e compartilhando momentos únicos de troca de olhares e abraços na tentativa de, juntos, vencerem o medo que o som furioso do oceano ecoa quando se aproxima da areia seca da praia.
Diante dos filhos que, sem relógio, sem pressa e sem expectativas voltadas para o futuro, apenas desfrutam o momento mágico de alegria em meio à fantasia proporcionada pelas circunstâncias, pais e mães poderiam simplesmente sorrir e concluir que tomaram boas decisões até ali, que foram bem-sucedidos até aquele instante, tendo concluído com honra e mérito a tarefa parental exigida deles nos últimos anos. Eu, no entanto, não consegui descansar nessa doce constatação. Tive que me questionar a respeito do que foi realmente construído ao longo dos anos que antecederam os pulos sobre as ondas debaixo de um céu azul que acolhia o forte e quente sol que levanta o mais cansado dos mortais.
Todos nós, quando abrimos os olhos pela primeira vez neste mundo, somos cercados por seres que chegaram antes de nós, estabelecendo regras, limites, padrões de conduta, rituais de socialização e de aquisição de conhecimento. As experiências que vivenciamos são, em grande parte, disponibilizadas e orientadas por seres que foram incumbidos de se responsabilizarem por nós enquanto permanecemos no período da dependência e da falta de autonomia. Não estou ignorando o livre-arbítrio; apenas indicando que esse atributo humano segue como faculdade psíquica e moral apenas após um período de internalização necessária de elementos que fazem parte de uma cultura preexistente.
Quando colocamos um filho no mundo, esse pequeno ser absorve comportamentos que são nossos antes de desenvolver aqueles que serão exclusivos dele. E quando um segundo ser emerge da mesma família, terá inserido em si não apenas elementos de seus pais, mas também do irmão ou irmã que veio primeiro. Existe uma aleatoriedade maravilhosa nessa determinação. Da mesma forma que nosso organismo sofre mutações aleatórias, responsáveis tanto por deficiências quanto por altas habilidades e competências, a construção da personalidade e das habilidades sociais de um sujeito desejante e pensante é influenciada de forma aleatória, a depender da família que o cria, do lar em que cresce, da ideologia e da economia que regem a sociedade que o abriga, dos valores morais e espirituais da comunidade que o acolhe, e, principalmente, das pessoas mais próximas que interagem diariamente com esse sujeito. A mãe, de fato, é a primeira mais influente, seguida, em regra, pelo pai. Mas a figura do irmão ou da irmã toma nas mãos esse cetro em pouquíssimo tempo. Assim que a criança volta seus olhos para outros seres, tendo como ponto de partida a necessidade de novas experiências e de busca por novas fontes de prazer fora do corpo materno, a outra criança presente no ambiente torna-se o ser de maior referência para os comportamentos que serão desenvolvidos a partir de tal momento.
Pela forma do objeto (altura, tamanho dos membros, formato do corpo e do rosto), pelo conteúdo manifesto desse objeto (conversas infantis cujos temas mais se aproximam do pequeno observador; brincadeiras que despertam mais curiosidade do que as atividades rotineiras dos adultos) e pela segregação que os adultos fazem ao colocar crianças, mesmo que de idades diferentes, em ambientes destinados exclusivamente a elas, estimulando ações e interações das quais os próprios adultos não farão parte, os irmãos se tornam essa referência necessária, assumindo o posto de modelo a ser seguido, com muito mais intensidade na estimulação da aprendizagem por observação e imitação do que são capazes de fazer o pai e a mãe.
A partir do momento em que o irmão ou a irmã que veio primeiro ocupa esse lugar de admiração, respeito e, por que não, idolatria, a criança que veio depois começa a se modelar um sujeito com base nos interesses do mais velho, em um processo de construção de identidade com foco inicial na aproximação do ser admirado, com quem se quer estar o mais próximo possível, para ser também amado, admirado e acolhido. Por isso, a minha filha de sete foi apaixonada por dinossauros quando tinha dois; tornou-se exímia na montagem de cenários de Lego aos quatro; colecionadora de cartas de Pokémon aos seis; e hoje, uma competidora feroz nas batalhas de Beyblade. Falta de personalidade? Não. Incapacidade de expor a própria vontade? Também não. Estou me referindo a uma menina bastante sociável e influente no meio das amigas, que passeia por diversos ambientes e que sabe também brincar sozinha com suas bonecas favoritas. Mas, nesse caso, a menina em questão é a irmã mais nova de um ser que, para ela, tem mais relevância do que seu pai e sua mãe no processo de inclusão e adaptação ao mundo social. Seu irmão de onze não é uma pessoa qualquer, mas a mais próxima dela quando seus olhos se abriram para o que havia fora de sua mãe. O sorriso mais cativante, a voz mais atraente, a expressão facial mais magnética, o chamado para brincar mais estimulante de todos.
É claro que, nesse processo aleatório, existem pontos positivos e negativos para todos os lados. O primeiro filho se beneficia de uma atenção mais exclusiva dos pais, recebe mais carinho e até mais investimento (brincadeiras, brinquedos, passeios, presentes), e pode mesmo sofrer um pouco quando percebe que um outro chega para tirar o que, antes, era apenas seu. E o segundo filho nasce em um ambiente com pais mais preparados, mais calmos, mais habilidosos na parentalidade, enquanto precisa se esforçar para encontrar seu espaço em uma casa dominada por seu irmão. O primeiro filho precisa ajudar com o irmão, participando dos cuidados e da atenção que o menor exige, mas pode se satisfazer com a honra de ensinar e de ser escutado e admirado pelo mais novo. O segundo filho pode ter uma dura e constante competição, mas, por outro lado, se desenvolve mais cedo, justamente por ter sido obrigado a "correr atrás do prejuízo".
Qual posição, então, é mais vantajosa? A do irmão mais velho ou a do mais novo? Não é esse o ponto de atenção aqui. A questão central é entender que irmãos se constroem como pessoas sendo irmãos. O amor que se desenvolve nessa relação não é apenas maravilhoso e especial aos olhos de mães e pais babões com suas crias, mas fundamental para solidificação do autoconceito, da sensação de pertencimento e de laços de afeto e segurança. Por mais dedicados que mães e pais possam ser, é da ordem natural da vida que a presença deles dure menos tempo. Mães e pais foram feitos para receber e redirecionar para o que está à frente e ao redor. Os irmãos, querendo ou não, cientes disso ou não, são responsáveis diretos pela manutenção do vínculo familiar que carrega o afeto necessário para o funcionamento saudável da mente humana. Padrões de comportamento e de relacionamento, estratégias de enfrentamento, habilidades de aceitação e transformação de situações aversivas se desenvolvem adequadamente com base nesse afeto.
Por isso, famílias com mais de uma criança em casa devem se preocupar tanto na atuação dos pais quanto no estímulo do relacionamento entre irmãos. "Sociabilidade forçada" é um termo que uso bastante para me referir a esse tipo de relacionamento. Forçada para que o hábito se crie e, a partir dele, o vínculo natural. Dormir no mesmo quarto; comer na mesma mesa, na mesma hora; brincar no mesmo ambiente; estudar na mesma escola; assistir ao mesmo filme; apresentar jogos que exijam a interação, a troca de palavras, de gestos, de toques...
Tem criança por aí na sua casa? Mais de uma? Duas, três? Estimule a interação, a convivência, as brincadeiras. Aprecie sem moderação seus filhos pulando as ondas do mar e cavando buracos que vão permiti-los atravessar o planeta até colocarem suas cabeças do outro lado do mundo, no Japão, na China ou na Austrália (a depender do país que elas mais gostem ou tenham mais ouvido falar a respeito). E, enquanto apreciam (e babam), entendam o processo maravilhoso de construção de amor, de vínculo, de identidade e de personalidade bem debaixo dos seus olhos.

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