top of page
Buscar

Prazer ou Felicidade?

  • Foto do escritor: Pedro Rangel
    Pedro Rangel
  • 8 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Você acordou hoje, saiu da cama, organizou seu dia e se arrumou para realizar determinadas tarefas porque havia algum objetivo a ser alcançado. Todos nós temos pequenas metas diárias e, certamente, projetos a curto, médio ou longo prazo. Nossos comportamentos são sempre motivados, mas nossos processos de busca nem sempre são os mais adequados, justamente porque nem sempre sabemos exatamente o que queremos, o que buscamos ou do que necessitamos.

 

Existem diferenças que, apesar de não sermos capazes de identificar sem uma boa dose de reflexão, precisam ser consideradas para que não sejamos frustrados com o acúmulo daquilo que não nos preenche por completo. O ponto que desejo abordar aqui é a necessária distinção entre “prazer” e “felicidade”, constructos tantas vezes misturados e confundidos a partir de referências pouco sólidas ou do excesso de estímulos provenientes do mundo que nos cerca.

 

O prazer é primariamente mediado pelo Sistema de Recompensa Cerebral, envolvendo regiões que geram sensações imediatas e positivas, respondendo a estímulos tanto naturais (comida, sexo) quanto artificiais (drogas). A felicidade envolve circuitos mais amplos e sustentados por um processamento emocional e cognitivo, refletindo estados de bem-estar mais duradouros, decorrentes do funcionamento maior do Córtex Pré-Frontal e do Sistema Límbico. Enquanto o prazer está ligado à motivação e ao reforço imediato, a felicidade traz em sua construção a reflexão, a avaliação de contexto e experiências mais emocionalmente significativas.

 

Como membros pertencentes à espécie humana, não podemos prescindir do prazer. Ele excede o simplesmente instintivo, pois nos leva a buscar situações e objetos que extrapolam o suficiente e necessário. Não comemos apenas quando estamos com fome. Eventualmente, gastamos mais do que temos ou bebemos mais do que podemos suportar sem passar vergonha. Casais não se limitam ao sexo monogâmico ou convencional quando desejam experiências que despertam novas sensações e vivências. Sem qualquer repúdio moral aqui, faço referência à inerente característica humana de busca pelo prazer. Não apenas a oposição à dor ou ao sofrimento, mas a sensação de energia, excitação e conforto extremo ao vivenciarmos certas experiências que respondem aos nossos desejos mais enérgicos.

 

Mas essa busca por prazer não é suficiente para preencher algumas lacunas mais essenciais de nossa espécie, sem contar com o fato de, em alguns momentos, provocarem distorções em nossas percepções e até mesmo prejuízos reais à nossa saúde emocional ou relacional. Curtir o fim de semana de festas pode ser bem prazeroso, mas e se isso custar a reprovação naquele concurso pelo qual você espera há anos? Um caso extraconjugal pode ser bem excitante quando a referência for o prazer, mas e se seu casamento for destruído e seus filhos sentirem vergonha de você? Por isso, a necessidade de compreendermos se o que buscamos é prazer ou felicidade. Enquanto moduladora do bem-estar prolongado e da sensação de adequação, pertencimento, utilidade e completude, a felicidade não se materializa através de vivências de gozo imediato, tratando-se, na verdade, de uma construção mais lenta, mais gradual, que carece de paciência e observação para ser sentida, compreendida e abraçada.

 

Desde a primeira corrente filosófica de pensamento, tentamos definir felicidade, ainda sem sucesso em decorrência de uma infinidade de conceituações e pontos de vista. Ainda assim, temos por certo, com base nas ciências humanas e da saúde, que seres humanos dependem essencialmente de outros seres humanos para se sentirem realizados no mundo. Bebês precisam de colo e abraço, tanto ou mais do que do leite materno. Crianças precisam de atenção, suporte e presença, tanto ou mais do que uma boa educação. Adolescentes e jovens precisam de valorização e aceitação, tanto ou mais do que oportunidades para se destacarem no meio acadêmico ou no mercado de trabalho. Adultos precisam se sentir úteis e necessários para outros, tanto ou mais do que realizados profissionalmente ou seguros em suas casas próprias.

 

A relação dos seres humanos com outros seres humanos, carregadas de afeto, emoção, parceria, conforto, cuidado e amor é o que mais se aproxima de uma definição de felicidade, conforme se compreende o ser humano como um ser dependente de membros da mesma espécie em um ambiente de convivência e coexistência afetiva.

 

Por isso, precisamos dar uma boa olhada ao nosso redor e dentro de nós mesmos para entender se estamos correndo atrás do prêmio certo! Dormir quinze horas seguidas em um dia de folga? Prazer! Ser homenageado com uma festa surpresa realizada pelos melhores amigos? Felicidade! Bebedeira no happy hour com o pessoal do trabalho? Prazer! Ser reconhecido na empresa por apoiar e estimular a equipe que você supervisiona? Felicidade! Orgia gastronômica na melhor churrascaria da cidade? Prazer! Chegar em casa tarde, cansada, estressada e ser recebida com carinho pelo marido de longa data? Felicidade! Noite de sexo tórrido com aquela pessoa de quem você está a fim há um tempão? Prazer! Escutar os passinhos do filho que acabou de acordar e tem como primeira ação do dia correr para seu abraço? Felicidade!

 

Precisamos de uma vida de prazeres, sem dúvida! Mas não existe vida plena sem a tal da felicidade... e ela não mora na casa dos prazeres. Não habita com os excessos, não convive com a ostentação, não conversa com a superficialidade e não pode ser experimentada quando o que queremos é a satisfação imediata que acalma nossa carne, mas não aquece nosso coração.

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
Mais devagar, por favor.

Existe um tipo de cansaço que o sono não cura. É um cansaço que não nasce nos músculos, mas na alma. É a sensação de estar vivendo a vida no modo acelerado, como se fôssemos espectadores de um filme q

 
 
 
Recomeços

Todos os pacientes de um terapeuta são importantes. Não, não estou fazendo média com meus pacientes que são também meus leitores, e também não estou dizendo que todos sejam simpáticos ou que todas as

 
 
 
Autenticidade

Somos moldados pela sociedade. Nosso comportamento é influenciado por normas e valores sociais, sejam eles transmitidos pelo hábito, pelo ensino ou pelas tradições, ou até mesmo através de imposições

 
 
 

Comentários


bottom of page