Recomeços
- Pedro Rangel

- 31 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Todos os pacientes de um terapeuta são importantes. Não, não estou fazendo média com meus pacientes que são também meus leitores, e também não estou dizendo que todos sejam simpáticos ou que todas as sessões sejam momentos maravilhosos. Mas, sim, todos os pacientes mexem com seus terapeutas. Comigo não poderia ser diferente.
Mais um ano se encerra e guardo comigo muitas experiências que me fizeram buscar aperfeiçoamento, entender mais as pessoas, sentir mais a dor daqueles que me procuram, e atentar mais para questões sempre tão presentes nos relacionamentos humanos. Algumas sessões de terapia são mais intensas do que outras e acabam ocupando um lugar maior na memória. Um caso me chamou a atenção neste ano. Não por ser mais pesado ou mais excêntrico, mas por retratar com fidelidade situações semelhantes que presenciei ao meu redor, com pessoas próximas. Um caso de separação, conflito conjugal e necessidade de seguir em frente.
Na passagem de um ano para outro, é comum um processo de análise do que vivemos e de projeção de mudanças para uma nova etapa. Expectativas, planos e intenções para construir, desconstruir ou reconstruir. Muitas vezes, nas listas que redigimos, seja em um papel opaco de um diário de couro que compramos com carinho, em um bloco de notas do smartphone ou apenas na mente desordenada que carrega consigo dúvidas e certezas em relação a conquistas e a frustrações, temos inserido o desejo de recomeçar. Recomeçar a vida com a mesma pessoa, após ajustes, confissões e estabelecimento de direitos, deveres e responsabilidades que estimulem o carinho e a parceria; recomeçar a vida sozinho(a), mergulhando em uma jornada de autoconhecimento, autovalidação e amor-próprio, aprendendo a desfrutar a própria companhia; recomeçar a vida criando ou fortalecendo laços com pessoas cuja presença desperta em nós desejos e expectativas maiores do que uma simples amizade.
Claro que é mais fácil falar (escrever) do que fazer. Recomeçar, em qualquer dessas três alternativas, exige esforço. Traumas e experiências de sofrimento, rejeição e traição deixam sequelas, marcas que dificultam e impedem a caminhada. É difícil mesmo seguir em frente quando somos marcados por fatos que nos levam de volta para trás, que nos paralisam com imagens mentais de situações que nos diminuíram, nos ofenderam e nos entristeceram a ponto de nos deixar frágeis o suficiente para abraçarmos nossa dor e ignorarmos que existe um caminho de possibilidades bem diante de nossos olhos.
Memórias ficam. As boas e as ruins. Todas as experiências marcam. As boas e as ruins. Recomeçar não é apenas uma decisão emocional. É um processo neurobiológico real. O cérebro não apaga memórias ruins, mas ele pode enfraquecê‑las, criar novas conexões e fazer com que experiências positivas se tornem mais acessíveis do que as negativas. O cérebro registra experiências ruins com mais força porque elas ativam sistemas de alerta que consolidam memórias de forma intensa. Isso faz parte de um mecanismo evolutivo de proteção: lembrar do que machuca aumenta as chances de evitar o perigo no futuro. Por isso, lembranças negativas costumam ser mais vívidas e persistentes do que as positivas. Apesar disso, memórias não são estáticas. A neuroplasticidade — a capacidade do cérebro de se reorganizar e criar novas conexões — permite que experiências positivas enfraqueçam ou ressignifiquem memórias ruins ao longo do tempo. Sempre que uma lembrança é acessada, ela entra em um estado maleável, podendo ser atualizada por novas associações emocionais e cognitivas. Assim, viver algo bom que contradiz o passado cria “concorrência” neural, tornando a versão positiva mais acessível.
“Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima.”. Não se trata apenas de um verso poético de uma música famosa de nossa cultura popular. São três passos necessários para recomeçar. Reconhecer o sofrimento, mas superá-lo. Superar não é ignorar. É compreender o que aconteceu, por que aconteceu, como aconteceu. Assumir nossa responsabilidade nesse contexto e sair da posição de vítima, descartando a autopiedade e ficando de pé para se apresentar ao mundo novo. Limpar os cacos, arrumar a casa, nos desfazer das lembranças amargas, desamarrar cordas que ainda nos prendem ao que nos aflige, nos afastar e descartar pessoas, objetos e atividades que nos lembram dos momentos de dor e infelicidade. Criar uma nova rotina, novos hobbies, colocar em prática planos antigos que até então não foram tirados do papel... Mudar o corte de cabelo, entrar na academia, começar a terapia, comprar a passagem para aquela viagem que você precisa fazer sozinho, iniciar uma noite semanal com as amigas, um jantar fora com a esposa com quem se deseja renovar os votos, participar mais das atividades do clube em que aquelas pessoas interessantes podem dar as caras, ligar mais para aquele seu amigo para quem você olha de uma maneira mais colorida...
Recomeçar, portanto, é um processo biológico real e extremamente benéfico: novas rotinas, relações e ambientes estimulam a formação de circuitos mais saudáveis, que podem se tornar dominantes com repetição e reforço emocional. Repito: não podemos apagar tudo! Mas podemos fazer com que as lembranças que abrem portas para as lágrimas percam intensidade, sendo acomodadas bem lá no cantinho da prateleira da sala. De vez em quando damos uma boa olhada nela, mas ela pouco aparece em nosso campo de visão na maior parte do tempo. Conseguimos isso quando criamos novas memórias, novas lembranças. Quando vivemos novas experiências que trazem sorrisos, encanto, diversão... que aquecem nosso coração, favorecem nossa paz, excitam nossos sentidos, fortalecem nossos instintos e nos presenteiam com a doçura dos momentos de prazer.
Talvez esteja na hora de recomeçar. Gostamos das segundas-feiras para iniciar projetos. Afinal... é o primeiro dia da semana, marcando a data de partida para um novo ciclo. Mas que dia melhor do que o primeiro dia do ano para colocar isso em prática, não é mesmo? Primeiro de janeiro é logo ali. Faltam apenas algumas horas. Prepare seu jantar, separe sua roupa, se apronte com carinho e faça sua contagem regressiva para recomeçar.
Feliz novo ano! Feliz nova vida! Feliz recomeço!

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