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Autenticidade

  • Foto do escritor: Pedro Rangel
    Pedro Rangel
  • 25 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Somos moldados pela sociedade. Nosso comportamento é influenciado por normas e valores sociais, sejam eles transmitidos pelo hábito, pelo ensino ou pelas tradições, ou até mesmo através de imposições coercitivas. Quem disse isso? Émile Durkheim, sociólogo francês, durante a passagem do século 19 para o século 20. Já faz muito tempo, é verdade, mas a afirmação não poderia fazer mais sentido nos dias de hoje. Mais do que em qualquer outro momento anterior da história da civilização, temos sido moldados pelo ambiente social e cultural que nos cerca. Moldados, não. Amassados, comprimidos, deformados! Redes sociais, influenciadores digitais, vídeos, textos e imagens em plataformas que ocupam a maior parte do nosso tempo e exigem de nós uma quase total renúncia a quem nós realmente somos, em favor da construção de um grande grupo homogêneo que deseja os mesmos bens, que almeja as mesmas experiências e que se comporta, age e reage da mesma maneira a estímulos carregados de aparência e pobres de significado.

 

Como podemos ser autênticos nesse mundo que exige tanta semelhança em um processo de despersonalização cada vez mais intenso e frenético? Como podemos ser genuínos, expor aquilo que pensamos e sentimos, criar no mundo externo aquilo que pulsa em nosso ser, sem nos sentirmos isolados, excluídos, diferentes demais ou inferiores diante daquilo que esperam de nós ou que consideram o “padrão desejável”, seja ele qual for? Não é fácil mesmo, não.

 

Recentemente, meu filho de dez anos me trouxe essa questão. Um problema quase existencial na vida de um pré-adolescente. “O que fazer para me enturmar com os garotos de quem eu nem gosto tanto assim?”; “Como ser popular com os meninos do futebol mesmo sem gostar de futebol?”; “Como ser feliz em um grupo que não me valoriza ou como ser feliz sozinho se parece que felizes são apenas os que têm plateia?”; “Como ser quem eu sou, se não me aceitam desse jeito... ou como ser quem querem que eu seja, se esse não sou eu de verdade?”. É... É mesmo muito difícil. Para um menino em formação, então, mais ainda. Ele nem sabe quem ele é de verdade, do que gosta, do que tem medo. Está em construção, conhecendo o próprio ser, descobrindo do que é formado e o que desperta nele o amor, a alegria, assim como o desgosto e a aversão. Para ele, não há pressa para ser autêntico. Nem se pode ser autêntico ainda. Mas... e quanto a você? Você, que já cresceu, viveu experiências positivas e outras angustiantes; que já pulou de alegria e se encolheu de tristeza; que já fez escolhas e colheu as consequências, construindo sua personalidade em cada um desses resultados... Você consegue ser autêntico(a)?

 

Não se trata de sair de casa com uma melancia na cabeça, de biquini no frio ou de óculos escuros à noite. Não é uma questão de aparecer com a imposição de um gesto ou um traço divergente ou demasiadamente excêntrico a ponto de se aproximar do que pode ser considerado descabido ou inaceitável. Estou me referindo à capacidade de ser quem você é e fazer o que parece de acordo com suas reais intenções e valores, ainda que a grande massa não aprove ou que você receba mais críticas e indiferença do que elogios e aceitação. Limitar-se ao suco ou ao refrigerante em uma comemoração regada a álcool; vestir aquela camisa com nome de sua banda favorita em cima de uma calça jeans larga quando a maioria diz que você ficaria mais atraente no vestidinho preto que marca o bumbum e afina a cintura; não fazer carão ou dancinha em suas postagens nas redes sociais porque você sabe que não tem nada a ver com quem você é, mesmo que todo mundo esteja fazendo e enchendo seus perfis de visualizações e comentários; sustentar seu rosto pouco másculo diante de uma gama de homens com seus maxilares quadrados harmonizados, ainda que o espelho tente te convencer de que você ficou fora dos padrões do esteticamente privilegiado.

 

Exemplos não faltam, mas o ponto central aqui passa, fundamentalmente, por saber quem exatamente você é no meio da multidão. Autenticidade é originalidade. Ser autêntico é não ser levado pela corrente, é se agarrar ao solo firme de uma personalidade madura e resistente às exigências sociais. Você só conseguirá se manter firme aos próprios valores se souber o que eles, de fato, significam pra você.

 

Não... Não estou convidando você a fazer terapia! Estou convidando você a mergulhar no autoconhecimento, o que você pode fazer ao se permitir olhar para dentro, aceitando seu passado, compreendendo seu presente e visualizando, com razão, carinho e motivação, o seu futuro.

 

Vamos lá... Faça um pequeno exercício de reflexão. O que você considera bom, útil ou admirável em você mesmo(a)? Alimente essa parte com mais oportunidades para expressar as próprias qualidades em seu dia a dia. O que te dá prazer, te conforta, te faz sorrir ou te proporciona vigor? É exatamente isso que deve fazer parte da sua rotina. Como você se enxerga daqui a dois anos, daqui a dez anos ou daqui a vinte anos? Tem medo do que visualiza? Suas expectativas parecem maiores do que suas possibilidades? Pense no que pode fazer hoje para se afastar de uma realidade incômoda ou desconfortável e pense no que pode fazer hoje para alcançar o que talvez pareça apenas um sonho.

 

Ser autêntico(a) é viver, agora, aquilo que existe dentro de você e faz com que suas decisões, que envolvem seu presente e seu futuro, sejam dignas de aceitação. Não pelos outros, mas por você mesmo(a). Ser autêntico(a) é investir em experiências, em pessoas e em bens que exaltam as características do ser humano que você é ou que está no caminho desejável de se construir, e não aquelas que o mundo exterior, à força ou sob contrariedade, deseja ver em você.


Nossa sociedade está repleta de cópias. Quer ser mais uma reprodução, entrando e saindo sem deixar uma marca que acrescente valor? Está confortável com a ideia de ser mais do mesmo?


Por que não fazer a diferença exercitando a existência única e singular da pessoa que você vê no espelho todos os dias ao se levantar?

 
 
 

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