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Perdão: quando o cérebro liberta a alma.

  • Foto do escritor: Pedro Rangel
    Pedro Rangel
  • 10 de nov. de 2025
  • 4 min de leitura

Imagine carregar uma mala invisível, cheia de mágoas, raiva e ressentimentos. Ela pesa, mesmo que não se veja. Pesa no corpo, na mente, no coração. E o que talvez poucos saibam é que essa bagagem emocional também pesa no cérebro. A ciência tem se dedicado a entender o perdão não apenas como um gesto ético ou espiritual, mas como um processo neurobiológico profundo, capaz de transformar circuitos cerebrais e promover saúde emocional e física.


Quando alguém decide perdoar, algo extraordinário acontece dentro da mente. Regiões cerebrais associadas ao estresse, à dor emocional e à vigilância — como a amígdala e o sistema límbico — começam a desacelerar. A amígdala, que funciona como um alarme interno diante de ameaças, reduz sua atividade. É como se o cérebro entendesse que o perigo passou, que não é mais necessário manter o estado de alerta. A ínsula, envolvida no processamento de emoções como raiva e nojo, também se modula, permitindo que o ressentimento perca força. Essa desativação do circuito de ameaça é um dos primeiros sinais de que o perdão está em curso.


Ao mesmo tempo, áreas mais racionais e reflexivas entram em cena. O córtex pré-frontal é ativado quando tomamos a decisão consciente de perdoar. Essa região é responsável por regular emoções, reavaliar pensamentos e promover uma interpretação mais madura dos eventos. É como se o cérebro trocasse o impulso pela reflexão, a dor pela compreensão. Essa reavaliação cognitiva é essencial para que o perdão não seja apenas um gesto superficial, mas uma verdadeira transformação interna.


Mas não é só isso! O perdão também aciona o sistema de recompensa cerebral. O núcleo accumbens, parte central desse sistema, responde com alívio e bem-estar. Neurotransmissores como dopamina, serotonina e endorfinas são liberados, promovendo sensações de prazer, calma e até euforia. A dopamina nos motiva, a serotonina nos estabiliza, e as endorfinas aliviam a dor — física e emocional. Em alguns casos, até a oxitocina, conhecida como o hormônio do vínculo e da confiança, é liberada, especialmente quando o perdão restaura uma relação afetiva. É como se o cérebro celebrasse a libertação, recompensando o ato de deixar ir.


Esse processo químico e cerebral não é apenas bonito. É terapêutico! O perdão regula o cortisol, o hormônio do estresse, que quando elevado por longos períodos pode causar danos à saúde, como insônia, hipertensão, baixa imunidade e até depressão. Ao perdoar, o corpo sai do estado de guerra e entra num estado de paz. A mente respira. O coração desacelera. A alma se aquieta.


Além dos efeitos fisiológicos, o perdão também fortalece a resiliência cognitiva — a capacidade de enfrentar situações difíceis sem sucumbir emocionalmente. Pessoas que praticam o perdão, inclusive o autoperdão, demonstram maior inteligência emocional, mais empatia e uma habilidade refinada de lidar com conflitos. Elas não negam a dor, mas aprendem a transformá-la. E essa transformação é o que permite que a ferida se torne cicatriz, e não prisão.


Na Psicanálise, o perdão não é visto como um esquecimento ou uma troca. É uma elaboração. É quando o sujeito deixa de reviver a ferida e a transforma em história. A dor não é apagada, mas ressignificada. O trauma deixa de ser uma chaga aberta e se torna uma cicatriz — uma marca que conta, mas que não domina. O perdão, nesse sentido, é a separação entre o sujeito e o ato sofrido. É a libertação da necessidade de manter viva a dor. É o desarmamento do superego punitivo, que tantas vezes nos aprisiona em culpa e exigências impossíveis. Ao perdoar o outro, o sujeito também se perdoa. E ao se perdoar, encontra espaço para viver com mais leveza.


A Psicanálise também nos ensina que o perdão não é um dom que se oferece ao outro, mas uma conquista interna. É o resultado de um processo de elaboração psíquica, onde o sujeito confronta o trauma, integra a dor à sua história e deixa de repetir inconscientemente o sofrimento. É a passagem da repetição à narrativa. É quando o evento deixa de ser um fantasma e se torna uma lembrança que já não assombra.


Na tradição cristã, Jesus diz: “Perdoados estão os teus pecados” (Marcos 2:5). Essa frase não é apenas uma absolvição divina. É um gesto de cura! É a declaração de que o passado não precisa aprisionar o presente. É o convite para caminhar sem o peso da culpa, da mágoa, da dor. É a afirmação de que a liberdade emocional é possível, mesmo depois da queda.


Perdoar é um ato de coragem. É decidir que a paz interior vale mais do que a razão de estar certo. É escolher a liberdade emocional em vez da prisão do ressentimento. É permitir que o cérebro, o corpo e a alma entrem em sintonia. E que juntos, possam seguir em frente. É assumir o protagonismo da própria história, deixando de ser refém do que fizeram conosco e passando a ser autor do que escolhemos sentir.


Se você já sentiu o peso do rancor, talvez esteja na hora de abrir essa mala. Não para esquecer o que houve, mas para transformar o que ficou. Porque o perdão não é apenas um gesto... É um renascimento! É a chance de recomeçar com menos dor, mais consciência e uma leveza que só quem já perdoou conhece.

 
 
 

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2 comentários


meisels14
11 de nov. de 2025

Jesus disse que devemos perdoar 70 vezes 7. Ele não tinha curso de psicologia, mas sabia os danos da mágoa e do ressentimento na mente e no coração de uma pessoa. Assim, por mais que seja difícil e por mais que doa em nós, o perdão nos liberta e nos abre um novo caminho para trilharmos, sem pesos e ressentimentos. Parabéns, Pedro pelo texto tão profundo e tão esclarecedor!

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ruth.cristina.rangel
11 de nov. de 2025

Que texto! Parabéns amor! Me tocou profundamente, perdoar é um ato de coragem. É decidir que a paz interior vale mais do que a razão de estar certo!

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